Qual a diferença entre um produto “Diet” e “Light”?
“Diet” e “Light” são a mesma coisa? Um produto “Light” tem menos calorias? E um produto “Diet” é sempre mais saudável?
Estas são algumas das dúvidas mais frequentes quando encontramos estes termos nas prateleiras dos supermercados.
As palavras “Diet” e “Light” estão associadas à ideia de alimentação saudável, perda de peso e redução do aporte calórico. No entanto, estes conceitos não significam exatamente a mesma coisa e, sobretudo, não devem ser interpretados como sinónimo de alimento saudável.
Compreender o que significam estas designações é importante para fazer escolhas alimentares mais conscientes e evitar cair em alguns dos erros mais comuns na interpretação dos rótulos.
“Diet” e “Light”: afinal, qual é a diferença?
Antes de mais, é importante perceber que “Diet” e “Light” não são sinónimos.
Na União Europeia, a utilização de alegações nutricionais nos alimentos é regulada pelo Regulamento (CE) n.º 1924/2006. O termo “Light” ou “Leve” está associado a uma redução de um determinado nutriente ou característica nutricional relativamente a um produto semelhante.
De acordo com o Regulamento (CE) n.º 1924/2006, uma alegação de “Light” deve cumprir as condições aplicáveis à alegação nutricional de “Teor de (…) reduzido” e indicar a característica que torna o alimento “Light”. Em regra, a redução deve ser de pelo menos 30% relativamente a um produto semelhante, embora existam algumas exceções previstas na legislação.
Por outro lado, a palavra “Diet” não se encontra prevista como uma alegação nutricional autorizada, por si só, ao abrigo da legislação europeia, nem pode ser considerada como equivalente à alegação “Light”.
Na prática, um operador comercial pode utilizar a palavra “Diet” no rótulo de um produto que cumpra obrigatoriamente os critérios de uma alegação nutricional autorizada e prevista pela legislação em causa, como por exemplo: sem açúcares (≤ 0,5g de açúcares/100g ou 100ml), sem valor energético (≤ 4kcal/100ml) ou valor energético reduzido e teor de (…) reduzido (redução mínima de 30%).
Por isso, o consumidor deve olhar para a alegação concreta e para a informação nutricional, em vez de assumir que a palavra “Diet” significa automaticamente um alimento mais saudável ou com menos calorias.
Em resumo:
“Light” → indica que determinada característica nutricional foi reduzida em pelo menos 30% relativamente a um produto semelhante.
“Diet” → não tem, por si só, uma definição nutricional única na legislação europeia que permita concluir que o produto tem menos calorias, menos açúcar ou menos gordura.
Por isso, não devemos escolher um produto apenas porque aparece a palavra “Diet” ou “Light” na embalagem.
Um produto Light tem menos calorias?
Nem sempre. Este é provavelmente um dos maiores equívocos relacionados com os produtos Light.
Quando vemos um alimento com a indicação “Light”, podemos pensar automaticamente que tem poucas calorias. No entanto, a alegação pode estar relacionada com diferentes componentes nutricionais.
Por exemplo, um produto pode ser “Light” por ter menos gordura, mas isso não significa necessariamente que tenha menor teor energético. Da mesma forma, um alimento pode apresentar uma redução de açúcar sem que isso signifique que tenha uma redução proporcional das calorias.
A legislação europeia distingue, aliás, entre diferentes alegações nutricionais. Para que um alimento possa ser apresentado como tendo valor energético reduzido, a redução do valor energético deve ser de pelo menos 30% relativamente a um produto semelhante.
Por isso, quando encontra a palavra “Light”, a pergunta não deve ser apenas: “Tem menos calorias?” mas sim “Qual o nutriente que foi reduzido neste produto?”. Esta informação deve estar, obrigatoriamente, indicada no rótulo.
Menos gordura não significa necessariamente menos açúcar.
Durante muitos anos, a gordura foi vista como o principal “vilão” da alimentação e como consequência, surgiram no mercado numerosos produtos com teor reduzido de gordura.
No entanto, a diminuição do teor de gordura de um alimento pode alterar características essenciais como o sabor e a textura, pelo que, por vezes são adicionados outros ingredientes para compensar essas alterações.
Uma revisão sistemática nos Estados Unidos da América, comparou versões “Sem gorduras” e com “Baixo teor de gorduras” com as versões tradicionais de vários alimentos e concluiu que estes produtos possuíam um maior teor de açúcar, relativamente às versões originais dos mesmos produtos.
Apesar das diferenças na regulamentação das alegações nutricionais entre os Estados Unidos da América e a União Europeia, esta revisão sistemática permite uma reflexão importante: reduzir o teor de um nutriente não transforma automaticamente um alimento numa opção nutricionalmente mais adequada.
É necessário olhar a composição nutricional como um todo.
E um produto “Diet”? Tem menos açúcar?
Também não podemos assumir isso apenas pela palavra “Diet”.
Existem produtos comercializados como “Diet” que apresentam redução ou ausência de determinados ingredientes, como açúcar, mas isso não significa necessariamente que sejam baixos em calorias.
Um produto pode, por exemplo, ter menos açúcar mas apresentar uma quantidade significativa de gordura ou outros ingredientes que contribuem para o seu valor energético.
Desta forma, se o objetivo é controlar a ingestão de açúcar, calorias ou gordura, o essencial é analisar cuidadosamente a tabela nutricional, e não ditar a escolha dos alimentos apenas pelas alegações nutricionais.
O problema do “halo saudável”
Devemos ainda considerar um fenómeno importante: a forma como as alegações nutricionais e a rotulagem influenciam a nossa perceção sobre os alimentos.
Por vezes, expressões como: “Light”, “Diet”, “Sem açúcares”, “Baixo teor de gorduras”, “Valor energético reduzido” e “Rico em Proteínas”, criam a perceção de que um alimento é automaticamente mais saudável.
Este fenómeno é frequentemente designado por “health halo”, ou “halo de saúde”.
Uma revisão sistemática de 2019, concluiu que alegações nutricionais como “baixo teor de gorduras” influencia a perceção do consumidor sobre o produto, considerando-o mais saudável, com menor aporte calórico e até mesmo, sobrestimando a porção adequada do produto.
Adicionalmente, as alegações nutricionais podem influenciar a perceção que temos sobre a qualidade e o sabor dos alimentos, bem como as intenções de compra e até o comportamento alimentar.
Ou seja:
uma embalagem que diz “Light” pode fazer-nos pensar que podemos comer mais, mesmo quando a diferença nutricional relativamente à versão convencional não justifica essa perceção.
“Sem açúcar” significa “saudável”?
Também não necessariamente.
A expressão “sem açúcar” deve ser interpretada de acordo com a alegação nutricional específica e com a composição do alimento. Além disso, é importante distinguir açúcares naturalmente presentes nos alimentos de açúcares adicionados.
Por exemplo, um alimento pode conter açúcares naturalmente presentes devido aos seus ingredientes e, ainda assim, ter uma composição nutricional global adequada. A qualidade da alimentação não deve ser avaliada com base num único nutriente.
Por isso, em vez de procurar simplesmente produtos “sem açúcar”, devemos perguntar:
O que substituiu o açúcar? E Qual é a composição nutricional global do alimento?
Devo escolher um produto normal ou a versão light?
Não existe uma resposta correta.
Não existe nenhum problema em consumir produtos “Light”. O erro está em assumir que um produto “Light” é automaticamente mais saudável ou que pode ser consumido sem preocupação. Um alimento “Light” pode ser perfeitamente adequado numa alimentação equilibrada, dependendo da sua composição e da quantidade consumida.
Em alguns casos, a versão “Light” pode ser uma alternativa útil. Por exemplo, se a redução de determinado nutriente for relevante para os objetivos nutricionais da pessoa e o produto continuar a apresentar uma composição adequada.
Da mesma forma, um produto na sua versão original não é necessariamente uma má escolha. A alimentação saudável não depende de escolher sempre produtos com menos calorias, menos gordura ou menos açúcar. Depende sobretudo do padrão alimentar global.
Mas isso deve ser avaliado caso a caso. Imaginemos, por exemplo, dois iogurtes:
Iogurte A
- 120 kcal
- 5 g de gordura
- 12 g de açúcar
Iogurte B – Light
- 90 kcal
- 2 g de gordura
- 13 g de açúcar
Neste exemplo, o produto “Light” tem menor aporte calórico e de gordura, mas apresenta ligeiramente mais açúcar.
Qual é o melhor?
Depende do objetivo nutricional e do contexto da alimentação da pessoa. É precisamente por isso que não devemos olhar apenas para a palavra “Light”.
O que devemos analisar no rótulo?
Quando comparamos dois produtos, existem alguns elementos importantes que devemos verificar.
- Valor energético
Observe a quantidade de energia, normalmente expressa em kcal e kJ. Sempre que possível, compare produtos utilizando a mesma referência, por exemplo, por 100 g ou 100 ml.
- Gordura
Verifique a quantidade total de gordura e, quando relevante, a quantidade de gordura saturada.
- Hidratos de carbono e açúcares
Não basta olhar apenas para os hidratos de carbono. É importante verificar também a quantidade de açúcares indicada na tabela nutricional.
- Proteína
Dependendo do alimento e dos seus objetivos, o teor proteico também pode ser relevante.
- Fibra
A fibra é importante para a saúde intestinal e para a qualidade global da alimentação, embora nem sempre seja apresentada como destaque na frente da embalagem.
- Sal
Um produto pode ter menos gordura ou açúcar e, ainda assim, apresentar uma quantidade elevada de sal.
- Lista de ingredientes
A tabela nutricional diz-nos quanto existe de determinados nutrientes. A lista de ingredientes ajuda-nos a perceber o que compõe o alimento.
Assim, é importante interpretar um produto não só pelas alegações mas também pela sua tabela nutricional e lista de ingredientes.
Uma revisão sistemática e meta-análise concluiu que a rotulagem nutricional na frente das embalagens pode melhorar determinadas escolhas alimentares, sobretudo quando a informação é simples e interpretativa.
No entanto, interpretar corretamente os rótulos nem sempre é fácil.
Por isso, não é necessário decorar todos os valores nutricionais. O mais importante é desenvolver o hábito de comparar produtos semelhantes e perceber o significado das principais informações.
Afinal, “Diet” ou “Light”: qual é melhor?
A resposta é simples: não existe um “melhor”. Depende do alimento, da diferença entre as versões, dos objetivos nutricionais e das necessidades individuais.
Assim, em vez de perguntar: “É Diet ou Light?”, deve perguntar: “O que mudou neste produto e essa alteração é relevante para mim?”
Esta mudança de perspetiva permite fazer escolhas mais conscientes e evitar que o marketing determine sozinho aquilo que consumimos.
5 dicas para escolher melhor no supermercado
Na próxima vez que encontrar um produto “Diet” ou “Light”, experimente seguir estes cinco passos:
- Compare com a versão original: Verifique se existe realmente uma diferença nutricional relevante.
- Identifique o nutriente com teor reduzido: Gordura? Açúcar? Energia? Sal? Outro nutriente?
- Consulte a tabela nutricional: Não se limite a interpretar as alegações nutricionais da frente da embalagem.
- Leia a lista de ingredientes: Perceba quais são os principais ingredientes utilizados.
- Pense no alimento como um todo: Uma característica nutricional isolada não determina a qualidade global do produto.
Em resumo: Diet vs. Light
Nota: a utilização concreta de determinadas alegações nutricionais na embalagem está sujeita à legislação aplicável. Na União Europeia, “Light” é uma alegação regulamentada e deve cumprir as condições previstas para “teor de (…) reduzido”.
A melhor escolha é uma escolha informada
As alegações nutricionais e os rótulos alimentares podem ser excelentes aliados, mas é importante saber interpretá-los.
Mais importante do que procurar o alimento “perfeito” é construir uma alimentação equilibrada, variada e adequada às necessidades de cada pessoa.
Se tem dúvidas sobre quais os alimentos mais adequados para os seus objetivos, uma consulta de Nutrição pode ajudar a avaliar a sua alimentação e a encontrar estratégias ajustadas às suas necessidades, rotina e objetivos.
Precisa de ajuda para melhorar a sua alimentação?
Na Clínica CLUBE18, a consulta de Nutrição permite analisar os seus hábitos alimentares e definir estratégias personalizadas, de forma realista e sustentável. Porque comer melhor não significa simplesmente escolher produtos Light, mas sim aprender a fazer melhores escolhas.
Joana Vilas
Nutricionista
CP Nº. 6655N
Referências Bibliográficas:
- União Europeia. (2006). Regulamento (CE) n.º 1924/2006 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de dezembro de 2006, relativo às alegações nutricionais e de saúde sobre os alimentos. Jornal Oficial da União Europeia, L 404, 9–25. https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32006R1924
- Nguyen, P. K., Lin, S., & Heidenreich, P. (2016). A systematic comparison of sugar content in low-fat vs regular versions of food. Nutrition & Diabetes, 6(1), Artigo e193. https://doi.org/10.1038/nutd.2015.43
- Oostenbach, L. H., Slits, E., Robinson, E., & Sacks, G. (2019). Systematic review of the impact of nutrition claims related to fat, sugar and energy content on food choices and energy intake. BMC public health, 19(1), 1296. https://doi.org/10.1186/s12889-019-7622-3
- Ebneter, D. S., Latner, J. D., & Nigg, C. R. (2013). Is less always more? The effects of low-fat labeling and caloric information on food intake, calorie estimates, taste preference, and health attributions. Appetite, 68, 92–97. https://doi.org/10.1016/j.appet.2013.04.023
